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Enviado: quinta jul 12, 2007 10:20 am
por Paulo
que nos trazem à memória recordações vigorosas, daquelas memórias que até o cheiro nos sobe às narinas.
Nem mais, e por vezes são certos cheiros que trazem à memória essas recordações, quantas vezes o cheiro da areia na mochila de surfcasting ou um dia de maresia mais intenso, lembra-me as primeiras pescarias que fazia com o meu Pai e com o Tio João, devia ter cerca de 7 anos nessa altura.

Enviado: quinta jul 12, 2007 10:36 am
por flex
atsimoes Escreveu: As minhas narrativas são afinal a nossa parte de pescadores que somos em defrontação e luta de, e não só com peixes, mas com nós proprios....
É sem dúvida nesse permanente reencontro que encontro a força que me renova... e em dias de tormenta seja ela fruto dos elementos ou do stress da labuta diária, a escrita sábia de quem já muito viveu traz uma lufada de ar fresco que me ajuda a respirar de novo....

Obrigado amigo Simões

Enviado: quinta jul 12, 2007 10:40 am
por flex
paulo Escreveu:
Já tínhamos falado no último encontro embarcado da possibilidade de eu dar um salto aí a cima, para como o Mário (aranha) e o Rui (pisões), fazermos uma pesca às trutas em Pisões, seguida de uma incursão de um dia a Corrubedo.

Depois do seu convite para um corrico nocturno a vontade de fazer essas mini férias ainda aumentou mais (o flex também já está com o bichinho).
...24 a 26 Reserva feita :D (venham tb as pintadas pois então :lol: )

Enviado: quinta jul 12, 2007 11:08 am
por pisões
Caro António Simões.

Como vê não faltam pescadores para o acompanhar a esse sitio espetacular chamado Corrubedo.

Como já lhe disse os seus textos são fantásticos e obrigado mais uma vez por os partilhar connosco. Tráz-nos recordações de tempo idos, pessoas e acontecimentos passados e pescarias feitas. Muito obrigado.

Só falta o Strob (Pedro Galante) dizer de sua justiça a ver se nos acompanha. Venha esse dia.

Enviado: quinta jul 12, 2007 11:34 pm
por Rui Pedro Marques
Caro "amigo"Simões


Passo os meus dias a trabalhar com pesca e a falar da mesma,algumas vezes fico com alguma inveja de clientes/amigos das saidas e estórias que me vão contando...
Mas mesmo assim cançado depois de mais um dia de trabalho vou muito mais bem disposto após a leitura das suas linhas neste espaço pequeno que é de tôdos nós...

um abraço

Enviado: sexta jul 13, 2007 8:43 pm
por atsimoes
É isso mesmo Caros Companheiros fica marcada a ida ao Corrubedo e ás trutas que nunca pesquei.!!!

Como esta secção é de corrico não deixo de terminar com este pequeno texto, porque de corrico se trata.Se houver um espaçozinho que o Boss encontre para os meus textos sem interferir nas áreas especializadas diga por favor onde e em que área as poderei colocar.
O meu obrigado mais uma vez pela vossa calorosa recepção.
Ps. As melhores para o grande pescador Ramiro!!

Abraço
António Simões

A corrida de um tempo duplo


Calço a bota, aperto o cinto ao peito, o colete com uma mão cheia de borrachas e preparo-me para a noite que cai sobre um mar remançoso, tranquilo de uma noite de verão. É a hora da partida, desço o declive do aterro e verifico se não há vestígios de pegadas denunciadoras de corricadores. A areia está limpa, o pesqueiro do começo da corrida contra o tempo daquela noite está pronto para ser batido.

A multidão de atletas espera o premir do gatilho... Estou um pouco nervoso é a minha primeira meia maratona, está quente neste dia belo de 3 de Junho, a partida começa.

Faço meia dúzia de lanços, lado esquerdo, lado direito, frente, calibro a borrracha, paro na linha de morte, umas milésimas de segundos o boião, por vezes os robalos estão a caçar pulgas da areia, ao milímetro esquadrinho o sector, não sinto nada, é hora de correr sobre a areia molhada ao norte, estou já ensopado de suor e ainda agora a corrida começou…

O andamento dos primeiros kms é vivo, o povo saúda na beira da estrada o n/esforço, vou colado no meio do pelotão, sinto a respiração e o suor desta tribo. A maior parte é veterana, verdadeiros corredores, venceram a dor há muito tempo, eu sou ainda o aprendiz, tento controlar o passo e não cometer loucuras e devaneios do jovem que já não sou.

Ao norte vejo corricadores. Um robalo de kg, denuncia-se à ilharga do cinturão… Boa noite!! Boas António…

- Não percebo... já não sinto mais nada há uma boa meia-hora…
- Bem podem ser a guarda avançada.., digo eu ao Jaime.

Assesto um lanço perto da pedra ilhada de agua, está a maré a descer e… Cravo um robalote de meio kg no primeiro lanço. Não dou tempo. No segundo lanço mais um de kg e pouco… O segredo… está na calibragem e na mão, o andamento do carreto. A maré continua a descer e os robalos estão já na segunda vaga, o banco de areia… vão fugir pela certa!!

Estou nos 10 kms, sinto-me bem, ouço um pouco de musica e bebo uma bebida que me dão , isótonica, de sabor desagradável. Atravessamos a ponte e o sol empina os seus raios. Cada vez estamos mais espaçados e sós.

Jaime, está a ficar nervoso, a sua respiração é ofegante, está pesado e os seus reflexos adivinham que vai arrebentar. Afasto-me um pouco... Paaack!! Pum!! Um tiro na escuridão… Era previsível… F... da p…..!!!! F…!!! Lá para o c..da linha!!!

Cravo mais um, e mais um. A minha respiração está controlada, o ritmo cardíaco também, respiro fundo e preparo-me para entrar agua dentro para a pedra ilhada.

Passo pela família.

- Vai Pai, vai, força pai!! Ao décimo quinto km, a multidão vibra e apoia este punhado de corredores malucos nas suas pernas voadoras. A dor começa e rasga-me o cérebro como uma esponja que suga a água que me dão...

Já estou na pedra, consigo passar com a bota-calça com agua pelo peito, e olho para trás. Como focas perdidas, fugindo do roaz-de-bandeira, Jaime e os outros tem botas curtas... Preparo o lanço, deposito o arco dos robalos numa poça e começo a corricar…

O pelotão já corre em debandada, sou ultrapassado por alguns, uma breve troca de palavras de apoio e seguem o seu caminho para a meta. Penso em desistir, estou a três kms do fim e sinto um ardor que me dilacera a perna direita. Vencer o medo, alcançar os objectivos, vencer os desafios… Deliro e parece que estou a escutar vozes vindas do céu… Gestores que apregoam enciclopédias de como vencer na vida... Fariseus dos tempos modernos… Como se a vida fosse ganha desta maneira... Não sabem nada. Nada é comparável a este desafio…

Os robalos já se foram, já estou no carro para seguir mais para norte ainda, está a amanhecer, estou cansado , com sede e o sono começa-me a vencer. Mais um, só mais um lanço, só mais um... Zé Maria está lá, como eu. Ambos estamos despertos pela brisa e espuma fria que molha as botas, o corpo entre as vagas... Ali Zé, ali!! Aponto ao sul, sardinha em saltilho, cheiro a peixe, tresando de suor. Hó gente, do mar,aproveitai o pão, que chega!!

Falta um km para a meta, um corredor está em dificuldade à minha frente. Colo-me a ele, vidas encontradas e unidas pela esperança de chegar ao fim desta caminhada. Vá… somos os dois num só… estamos quase... sim... quase, como se o tempo contasse algo, como se as fronteiras da vida fossem cronometradas por números, algarismos cinzentos de lógicas de raciocínio sem espaço para viver livres de compromissos, horários e esgotantes vidas de uma corrida contra o tempo…

Olho para os robalos, soberbos na sua linha transversal, depositados lado a lado, com a guelra aberta do stress provocado pela angustia de um anzol... É assim que morre o peixe de anzol, quando caça utilizando toda a sua energia na perseguição da presa.

A corrida acabou, choro de um sem numero de coisas que me vem à cabeça, dizem os cientistas que é uma hormona… eu penso que é a vida quando começa no choro de um recém nascido que vê a luz pela primeira vez…

Em mundos paralelos, há dois corredores, o das trevas e o da luz... Na corrida deste tempo duplo, estamos suspensos sobre um mar liquefeito ao sabor das ondas que flutuam em ordem e desordem, ao sabor dos ventos, à inquietude das marés.

No principio era o mar. Nas suas águas flui todos os nossos desejos e angustias.

A sua cumplicidade começa a partir do momento em que todos nós não sabemos onde começa a sua história e a nossa.

Onde acabará a sua e a nossa.

A alma deste mar não está nas suas águas, revoltas ou espelhadas de azul.

Está simplesmente em nós.

Ele apenas é o reflexo de tudo o que temos feito até então.

António Simões, Leça da Palmeira , 3 Junho 2007

Enviado: sexta jul 13, 2007 10:15 pm
por bluemerlim
Boas. 8)

Muito obrigado SR António Simoes.......!!!!!
Confesso que me tenho tornado bastante selecto com o tipo de leitura que emprego contra a minha própria preguiça em lêr,mas,confesso ,que perante um texto destes,onde o baixar da pagina com o rato na mão,1 ou 2 paginas de 1 texto seu,além de se tornarem em aventuras tão próximas de recordaçoes tão nossas........se lêm num abrir e fechar de olhos,deixando-nos tão tristes pelas mesmas se tornarem tão curtas.........!
Muito Obrigado mais 1 vez.
1 Abraço.
Nuno.

Enviado: sexta jul 13, 2007 10:37 pm
por toalhas
Mais uma vez parabéns =D> =D>