parte II: Uma corvinassa para Juvêncio Pires

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FILIPEPC
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parte II: Uma corvinassa para Juvêncio Pires

Mensagem por FILIPEPC »

* Parte II

Pois é pessoal, a paragem da maré e início da vazante ou enchente, altura mais "lucrativa" na pesca ao fundo às corvinas estava a chegar e nós estávamos lá...

Comemos qualquer coisa e preparámos as canas, duas com choco fresco, uma com caranguejo e outra com um vinil a trabalhar sozinho... A maré virara, e apenas um charroco me calhou... Confesso que desanimei um pouco, estava muito cansado, a directa moeu-me o corpo, o frio gelou-me a alma, e a moleza apoderou-se de mim. Com o sol a desabrochar o sono começou a vencer-me e deitei-me no barco e fechei os olhos, o Palma deitou-se na bóia lateral do barco e lá descansámos um bocado. Passada uma meia hora, lá abrimos os olhos e resolvemos renovar as iscadas, que estavam intactas...

O relógio marcava as 2 horas e a maré já levava cerca de 40 minutos após a viragem e eu já não tinha muito tempo até ter que me ir embora... Lançamos novamente com iscadas novas e ficámos à espera... e finalmente tive uma cabeçada vigorosa, e rapidamente agarro na cana, peixe ferrado, e rapidamente percebi que era bruto, não corria... Hmmmm, não devia ser corvina, mas fazia muita força, dava muitas cabeçadas e chegou a levar linhas algumas vezes... Tive calma até o trazer perto do barco e apesar da falta da corrida tradicional que os predadores dão como é o caso da corvinas, ainda esperei que fosse alguma com menos "pica" e tive cuidado. Charroco não me parecei, só se fosse algum charroco mutante. Quando finalmente o peixe sobe e o consigo ver, já o Palma estava de chalavar na mão, eis que se tratava de um grande exemplar de safio... Fiquei fulo. Lá refilei para o ar, o Palma ria, e eu era só asneiradas, e só pedia para ele se soltar, e eis que por entre um desses pedidos, já ele estava muito perto e a chumbada fora de água, o gajo solta-se e lá foi à vida dele. Fiquei tão danado que nem me apetecia lançar mais, mas tinha ainda uma hora e tal, e,olhem lá continuámos...
Canas lançadas, votos renovados, mas eu estava mesmo sem pica, o corpo dizia-me " estás a abusar" e pousei a cana no barco, não a prendendo no tubo próprio. Deitei-me com novamente e o Palma fez o mesmo na bóia lateral. Fechei os olhos e aproveitei aquela aragem e a moleza fez-me passar pelas brasas. Abri os braços e estiquei-me todo, ficando o braço direito por cima da cana.
Devia estar a sonhar com alguma coisa boa, pois estava a saber muito bem, quando do nada sinto duas mocadas no ombro... PUM PUM! Quem seria? Levantei-me alarmado, ainda longe de saber o que me esperava! A fé era tão pouca, talvez fruto do cansaço que sentia, pois até costumo ser mais crente do que o Palma, que pensei logo num charroco mutante, ou algum safio com upgrade sei lá. Tudo menos o que era... Longe de imaginar que iria ter os melhores 20 minutos de pesca que tinha tido este ano até aquele momento. Agarro na cana, e sinto os toques, normais até, quando dou aquele safanão para trás e de repente solto o fúria do predador!
Por entre um arranque avassalador, os meus braços ficaram em pedra, agarrando a cana que tentava aguentar a corrida desenfreada do predador. O drag esse, ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ, disparou loucamente, a linha dava a volta ao barco a uma velocidade louca, e eu tentava perceber o que o peixe me transmitia. Ora para a esquerda, ora para a direita, a Corvina( naquele momento não tinha qualquer dúvida disso), levava-me ao limite, ao êxtase.A minha velhinha XTRA-BOAT da Prosagus, tornava a sentir aquilo que tanto sentiu já fazia muitos anos, no tempo em que vinha ao mar com outro grande amigo de quem tenho muitas saudades, do João( se algum dia vires o nosso blog, por favor contacta-me. Espero que estejas bem amigo).

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Por entre aquelas arrancadas, fui, digo-vos curtindo muito, mesmo muito. Aquele momento, vale por um ano, vale por dois, vale por tudo. Passamos anos à espera de sentir algo assim na cana, e nem sempre aparece. Nem sempre temos lutas tão boas. Se o trazia ou não já era um pormenor que embora me importasse, já em nada me tirava aquela sensação. Tinha sentido um peixe de grande porte, e logo naquela cana tão macia, e quando não estamos à espera as coisa parece que sabem melhor...
Eu subia ás bóias do barco, ia pedindo ao Palma que desviasse canas, que me deixasse passar, e o peixe ia lutando pela vida, e eu, ia lutando para o tirar... Momento fantástico!
Quero ressalvar um aspecto. Pescar às corvinas no barco tem prós e contras. Mesmo eu considerando que tem mais prós do que contras, tem um aspecto a meu ver mais complicado. Não temos os pés no chão, não temos o centro de gravidade controlado. O barco abana, e ainda por cima somos obrigados a nos deslocarmos num curto espaço( ainda por cima o barco é pequeno). Não se pode ter tudo!

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Já o peixe estava perto e eu desejoso de o ver, peço ao Palma que se preparasse para o momento final.
As águas estavam tão tapadas que não se via patavina. Nada. A chumbada já ao de cima de água e ela( por acaso veio a verificar-se ser um ele), puxava pelo estralho para o mais longe do barco possível, e ia dando os últimos arranques. Eu ia dizendo ao Palma que não ia esforçar em nada o peixe, e que seria ele a decidir o fim da luta. Mais uns minutos de sucessivos arranques e lá a vimos a vir ao de cima pela 1ª vez e vimos logo ser um grande peixe. Resolvi mesmo não a esforçar. Queria mesmo tirá-la. Tinha 2 situações atravessadas dentro de mim. Cicatrizes da vida. Uma delas tinha que ser resolvida ali, naquele momento.

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Já passados uns 20 minutos pelo menos, não sei bem, eis que ele sucumbe e vem ao de cima, virando a barriga de lado. O Palma, bem, põe-o rapidamente dentro do barco, e eis que estava feito. Estava cá fora uma linda corvina. Os olhos do Palma brilhavam, os meus também, mas uma profunda tristeza que não quis que o Palma se apercebesse tomou conta de mim. Sabia bem o significado daquele momento.
Voltemos à pesca...
Faltavam minutos para ter que me ir embora, mas depois daquele peixe, tínhamos que lançar mais uma vez... Iscadas generosas, como manda a regra, e pimba lá para dentro.
Em segundo, tornámos a ter mais 2 toques, e a do Palma ferrou. Estava lá,dizia-me ele, e mesmo não sendo do mesmo porte, nem sequer uma burra, era já uma captura interessante. Em dois minutos o Palma trouxe-a até perto do barco onde eu ainda encarreguei-me de o ajudar, e em vez de a pôr dentro do chalavar à primeira, dei-lhe foi duas mocadas na cabeça, lololol( agora posso me rir, ela não fugiu eh eh eh) e após isso, lá a pus a seco.



Felizmente fizemos o gosto ao dedo, e ambos viemos realizados da pesca. Já estava muito em cima da hora e tinha que me despachar. Por entre o caminho de volta foi tempo de falar comigo, de pensar em algo que o ano passado tentei tanto e que não consegui resolver.

Não tenho por isso mais para vos contar sobre esta pescaria, apenas dizer que chegámos bem.

Existe no entanto um sentimento especial neste relato, e nem sei bem porque o partilho, ele não o pode ler...
Esta corvina é dedicada ao senhor Juvêncio Pires.
Faz por esta altura pouco mais de ano e meio que na família ficámos alarmados com queixas que o senhor Juvêncio Pires foi apresentando e após muitas tentativas lá o levámos para o Hospital.
De lá já não saiu. Quando o ia visitar, com muita esperança de o ver bem, brincava com ele, e quando ele pedia para ir para casa, pois não gostava de lá estar embora mal se aguentasse em pé, respondia-lhe que só quando conseguisse realizar três tarefas que eu tinha estipulado eu o deixava sair...Tinha que correr 2 voltas à roda do hospital, tinha que me arranjar o número das enfermeiras mais jeitosas, boazonas mesmo lol, e tinha que comer o covinão enorme que eu lhe ia levar, cozidinho pela minha mãe. Eu abria os braços e dizia que ia apanhar uma assimmmmm:


Ele fraco, sorria com aqueles sorrisos de gozo, uma cara que ele fazia, de quem acha que o estás a enganar, e dizia que "alguma vez vais apanhar isso", e eu dizia-lhe que sim que ia e que ele ainda ia ficar surpreendido comigo.
Os dias eram curtos por essa altura, embora estivéssemos no Verão, lembro-me de ser Hospital, Hospital e pouco mais. Algumas noites ia tentar capturá-la, quando sentia vontade ou quando a mente o pedia, e foi nesse mês, que juntamente com o meu tio e com o Filipe João que perdemos duas corvinas que seriam os nossos record´s e provavelmente os record´s de uma vida e a oportunidade de cumprir com a minha promessa.
Após 2 AVC´S ele já não me dizia que eu não ia apanhar a Corvina, apenas sorria, e eu continuava a pedir-lhe que lutasse, e continuei em busca de algo que nunca mais me foi a cana.
No último dia, uma conversa com uma médica fez-me perceber o que estava para vir. Nesse dia percebi que não iria cumprir com a minha palavra. Nesse dia percebi que nem sempre podemos cumprir com as nossas promessas. Por tudo isso, a cicatriz ficou e fica para sempre.Mas hoje posso dormir melhor pois finalmente consigo "entregar" o que prometi.
Esta é para ti. Continuo a fazer o que mais amo, como aprendi contigo e com os tios lá na Culatra em menino.

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Desculpa o atraso, não o consegui antes avô.
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TALIBAN
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Registado: sexta abr 10, 2009 10:25 am

Re: parte II: Uma corvinassa para Juvêncio Pires

Mensagem por TALIBAN »

Boas pescarias.

Dizer o quê, mais uma vez obrigada FIlipe, simplesmente magnífico, conseguiste cumprir a palavra dada ao teu avô.

Abraço.

Braga
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robalomaster
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Registado: sexta fev 03, 2006 6:23 pm

Re: parte II: Uma corvinassa para Juvêncio Pires

Mensagem por robalomaster »

Tenho reparado muito nos teus posts Filipe, sejam eles de ajuda com os outros membros, sejam eles de relatos, sejam eles de simples boas vindas ao fórum a novos companheiros, aqui através do sítio e no teu/vosso blog e cada vez te acho mais genuíno, pessoas assim acho que todos nós mereciamos conhecer nesta passagem que é a vida. Muitos parabéns pelo corvinão que capturaste, de certeza que o teu avô assistiu lá de cima a toda a luta e se orgulhou de ti :)
Abraço
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Rui Monteiro
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Registado: terça abr 24, 2012 1:39 pm

Re: parte II: Uma corvinassa para Juvêncio Pires

Mensagem por Rui Monteiro »

Olá Filipe,

Mas que grande relato amigo, pescar essas burras deve ser um "orgasmo múltiplo" :) :) :) ,ontem fui pescar com o nosso amigo Zé Pedro e ele está em pulgas para ir ai tentar a sorte de apanhar uma menina dessas,pena eu não poder ir para te conhecer pessoalmente e ter o um orgasmo :moca: ,concerteza vai haver mais oportunidades!
Parabéns amigo a ti a ao Palma que são sem dúvida uns excelentes pescadores :join:.,obrigado pela partilha.

Abração e até qualquer dia.
Urubu
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Joao Rodrigues
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Registado: segunda set 13, 2010 1:36 pm

Re: parte II: Uma corvinassa para Juvêncio Pires

Mensagem por Joao Rodrigues »

Palavras para quê?!?!?!?!?

Obrigado pela partilha Filipe.

João
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joaonumberone
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Mensagens: 4222
Registado: sábado mar 26, 2011 8:53 pm

Re: parte II: Uma corvinassa para Juvêncio Pires

Mensagem por joaonumberone »

Grande Filipe, lá veio mesmo um grande peixe.

Mais importante que o peixe é o facto de te lembrares de uma pessoa muito importante para ti, isso é que tem mais valor.

Um abraço
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Panca
Utilizador Regular
Mensagens: 9751
Registado: quarta out 21, 2009 6:13 pm

Re: parte II: Uma corvinassa para Juvêncio Pires

Mensagem por Panca »

=D> =D> =D> =D> =D>

Fiquei sem palavras Filipe essa parte final partiu-me o coração pá :fixe: :fixe:

Parabéns pelo peixão e obrigado pelos teus relatos
Luis Passeiro
Mensagens: 216
Registado: sexta out 30, 2009 11:11 pm

Re: parte II: Uma corvinassa para Juvêncio Pires

Mensagem por Luis Passeiro »

Este relato é o melhor!
Não digo isto por conhecer Filipe nem por o considerar um amigo que a pesca me trouxe mas por ter sido um relato que me arrepiou por toda a historia.
A certa altura parecia que tava dentro do barco ao lado dele...

Parabéns amigo!
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